janeiro 31, 2004

E tu, que vês?


«Uns vêm em mim uma águia, outros um burro;
este vê um camelo e a maioria um outro qualquer animal.
Só há uma coisa que nunca fui: eu próprio.
Mas esse é um dos segredos que levarei para a minha sepultura.»
José Gomes Ferreira

Black days

São dias (ou noites) como o(a) de hoje que me obrigam a questionar o porquê de incidir repetidamente sobre questões mundanas e banais. Situações, entidades e figuras efémeras não me deveriam merecer tanta consideração e ser objecto de reflexões infrutíferas. Choco-me com os pensamentos que julgava serem tão importantes. Não procuro ser erudito, até porque me repugna o conceito. Sou cidade, campo e mar. Sou carro, bicicleta e carroça. Sou vulgar, mas.. sou. Sinto a brisa e o raio de sol, como toda a gente.
Então porque vivo preocupado?
O mundano e o banal tiram-me o sono. Passo noites inteiras a contemplar um tecto de madeira; com um pouco de azar, a chuva bate-me à janela com um barulho agudo, a fazer-me lembrar as agulhas de uma máquina de costura. Ensurdecedor.
Quando chega a calma e o cansaço me vence, assaltam-me os pesadelos. Recorrentes, repetitivos e estúpidos. Mas tremendamente assustadores. Junto pessoas que amo com algumas que odeio. Junto passado com presente. Junto quotidiano com excepções absurdas e confronto almas que nunca se conheceram.
Volta a chover e acordo. Convenço-me de que sei quem sou. As merdas que digo, o bem que faço e todos os suspiros que der nesses intervalos.
Mas então... porque vivo preocupado?

janeiro 29, 2004

Ficar doente? Nem pensar!

A função pública em Portugal é uma vergonha. Todos os problemas que de dia para dia, tendem a aumentar nesse sector, são fruto de uma visão primitiva e de laissez-faire, há muito instalada. Parece-me que neste sector, como aliás em todos os outros, um dos grandes problemas é a motivação. Um sentimento de realização é por vezes melhor que um cargo ou um aumento no salário. Mas na "nossa" função pública, não há nem uma coisa, nem outra.
Em concreto falo dos centros de segurança social! Ahh, a solidariedade! Que palavra bonita!
Neste ramo existem profissionais com mais de 25 anos de serviço (uma vida de trabalho) que auferem 650 euros/mês. Neste ramo, o sistema de promoções e ascensão na carreira, é uma farsa. Mas, ainda não satisfeito, o "nosso" governo decidiu-se agora por esta medida justíssima!! Senão vejam:
Para um trabalhador se candidatar às promoções, entra num concurso interno. Muito democrático, dirão. Nem vou tecer comentários sobre favorecimentos e outras coisas estranhas que se passam nesses ditos concursos. O que o Bagão e o Durão se preparam para fazer é excluir desses concursos, todo e qualquer trabalhador que apresente mais de 30 dias de baixa médica por ano. É certo e desejável, não adoecer. Mas acontece. Em termos práticos, mais de 30 dias doente em casa, com justificação médica, claro está, está fora do concurso.
É muito mais barato do que fiscalizar as baixas fraudulentas, sem dúvida. Poupa-se duas vezes pensarão os iluminados de lisboa! Não há promoções nem se investe na fiscalização.
Não é de resto uma situação nova. A questão dos impostos é um espelho: em vez de fiscalizar e aplicar um golpe forte a esta pouca vergonha que é a evasão fiscal, aumenta-se a carga no zé povinho, que não pode fugir nem reclamar. Parece que estou a ouvir o Bagão: "Eficiência!"
Tenho feito um esforço enorme para compreender as razões que levam o governo a tomar decisões como estas. Da mesma maneira que não os entendo, também não sei até onde a corda vai aguentar...

janeiro 20, 2004

Indisposição matutina - Parte I

Acordei enjoado e tive de vir para as aulas. Desta cadeira de café vejo passar os meus camaradas. A cantina está cheia de sonhos... e ilusões. Os deles, que são os meus. O problema é esse: a convergência de sonhos! Ainda assim, não existe um esforço comum. E assim vai o mundo, cheio de banalidades, não nos incomodassem elas. Como se viu...

O governo reuniu em Óbidos. Se o cheiro da ginja os inspirar a tomar UMA (que seja) decisão, já valeu a pena sair do mofo das salas de reuniões lisboetas. Mais turismo é que não! Já batemos no fundo, por isso está na altura de deixar o "governar dia-a-dia". A torneira europeia fecha-se cada vez mais e estamos a ficar sem empresas públicas para vender. Acordem e façam alguma coisa pelo país!

A nova DOIS, televisão de serviço público (??), reduziu drásticamente o número de filmes na sua grelha de programação. O "5 noites, 5 filmes"... já era. A programação da Euronews, que ocupava toda a tarde, passa agora á noite. Entre outras pérolas... Muito mais interessante, sem dúvida.

Está tudo mais caro. Se não está ainda, vai ficar. O pão, a gasolina, o tabaco, comer fora e a cerveja. Já nem sei o que é considerado "bem de primeira necessidade" e "um vício". Mas, que raio importa isso? Está TUDO estupidamente mais caro. E depois vêm uns senhores de fato e gravata pedir para o povo não se irritar por falarem em contenção salarial. "Estão a ir-nos ao bolso" - digo eu!

Será construtivo dizer que esta crise não justifica, de todo, a letargia em que se mergulhou. É certo que dizem que a nossa auto-estima anda em baixo, que os níveis de confiança atingiram um valor mínimo. Dizem que é perigoso andar na rua, os assaltos e os crimes! A pequenez não é pedagógica, muito menos moralizante! Mas é mais fácil para escamotear orçamentos vergonhosos, onde para combater o "medo" e o "terror" se dá dinheiro ao menino mimado que é o Portas, afinal para andar a viajar de Falcon e comprar submarinos!
É esse clima de medo que interessa. O que nem é, de resto, original. Os E.U.A. adoptaram esse sistema desde a 2ª Guerra Mundial. Aprendemos tanto com os nossos amigos!

Não há teoria da conspiração! Apenas um constatar de factos que apenas levantam o véu á podridão em que estamos mergulhados. Da política até à alta finança, da aldeia à grande metrópole, tornamo-nos, dia-a-dia, bichos nojentos! É certo que uns andam bem tratados. Ao bébé que está gordinho, costuma-se dizer: "Andas a mamar bem!"

janeiro 17, 2004

Palhaços

É impossível manter a boa disposição e acreditar num futuro justo.
Aqui no nosso cantinho, o PM Barroso surpreende-me, dia após dia. Se não fosse trágico, tinha piada. E respeito aos palhaços, profissionais dignos, que nada têm a ver com o objecto deste post. Vem agora dizer, sua excelência, que é a favor da descriminalização do aborto. Já estava preparado para dizer bem do cherne, quando, qual descarga da bilis, remata dizendo "devido a compromissos eleitorais, não podemos rever essa matéria nesta legislatura" - isto é não ter vergonha na cara! Para completar o prato, o dirigente Guilherme Silva já avisou os deputados que face á "proposta alheia", devem manter a disciplina de voto. Em duas palavras esta situação descreve-se assim: grande palhaçada!
Mas, mal vai o mundo, não pensem que é só a nós que nos saiem os duques do jogo. Do lado de lá, têm o George... e a coisa não vai melhor.
Depois de iniciar o jogo (leia-se guerra) no iraque, o Bush junior não sabe como terminá-la. Até aqui nada de novo, pois o incapaz não tem a mais pequena ideia do que foi lá fazer. Os amigos do papá Bush sabem! Por isso, logo que o filho ganhou (ou não...) as eleições, informou-o que já tinha todos os nomes, para todas as pastas. O próprio plano para derrubar Saddam, gorado durante o seu "reinado", foi de novo executado, desta vez com mais meios - 62% do orçamento norte-americano é dedicado á pasta da defesa. Nome engraçado, já que a estes senhores, a máxima aplica-se: o ataque é a melhor defesa. Fico com vómitos só de me lembrar do que se passou nos ultimos 50 anos, mas esse será outro post.

Por agora e antes de me dirigir ás instalações sanitárias, recomendo que leiam isto. Um dos amigos do Bush mais velho, Dick Cheney (actual vice-presidente) sabe o que se passa. Reparem bem na cara do ignóbil quando aparece numa conferência de imprensa, parece que está sempre com vontade de se rir... e se calhar está mesmo!
Acabo com duas curiosidades: a Halliburton, dirigida por Cheney, mantinha até ao ano 2000, negócios com o Iraque e a Birmânia (dois regimes repressivos, que eles tanto gostam). Mas, mais importante, se bem que mais indigesto, este mesmo senhor, durante a presidência do Bush senior, foi secretário da defesa, responsável pela invasão do Panamá e da guerra do Iraque (esta não, a primeira...)
Enfim, um nojo.

janeiro 13, 2004

Ambição lógica

A lógica está, obviamente, em viver o dia de amanhã um bocadinho melhor que o de hoje. Há quem lhe chame ambição. Mas, engraçado!, como muda o sentido de uma afirmação quando variamos entre a 1ª, 2ª ou 3ª pessoa. A vontade de ser e ter mais, é legítima e inata. É o limite, que separa a vontade do respeito, que é ténue. Vive-se para conquistar, conquista-se para explorar. Destrói-se o que não se consegue conquistar e explorar. É simples e cruel esta lei do mais forte. Para haver mais forte, há um mais fraco. Por esta lógica (que não tem lógica), a vida é lixada para 50% das pessoas. Só?
E por causa dessa ambição, que não desejo, vivo numa ânsia que não sei explicar. O traço descontínuo da estrada passa debaixo dos meus pés. Não o vejo mas sei que está lá. Limita e establece a regra. Também por ambição, ou falta dela, faço um esforço por classificar os meus medos. Seja qual for a origem da minha ansiedade, o meu medo caminha a seu lado, parasitas, um do outro.
Acabo por não concluir se me sobra, ou falta, ambição. Não concluir é, de resto, a minha única certeza. Ao fechar a porta e abordar as ruas, torna-se tudo um pouco mais claro. Gosto da sensação e gosto das ideias que me faz ter. De resto, vagueio um bocado. Concentro-me quando necessário, respiro quando preciso de ar e vou vivendo. Mas não me sinto sempre vivo.
escrito a 03-11-2001

janeiro 12, 2004

Férias de sonho

Começo pelo fim: Não viagem com a AIR LUXOR!
Saudosas as férias que tive a oportunidade de tirar nesta quadra festiva! Rumei à America do Sul para visitar familiares e afogar-me em "Cuba Livre". Férias de sonho. Teria sido assim, não fosse a indigestão causada por esses infames e pulhas da companhia aérea que é a Air Luxor.
É suposto levar a mala, algum dinheiro e UM bilhete de ida e volta. Pois com esta "estrela" da aviação civil europeia, para se regressar a casa, é necessário algo mais. Em traços gerais, não havia avião para trazer 70 portugueses de Madrid para Lisboa. Alternativas da Luxor? "Vão de autocarro!" - Nem sei como, entre tanto português, ninguém se passou do juízo e não respondeu, à letra, a uma calinada deste tamanho.
Confusão instalada, um jogo do empurra nojento, com 70 jogadores e um aeroporto (de Madrid) como expoente máximo da falta de profissionalismo e respeito.
A solução passou por comprar OUTRO bilhete, na "nossa" TAP, para regressar a Lisboa. A Air Luxor deve-me o valor da passagem da TAP bem como o do trajecto Madrid-Lisboa, que não efectuaram. Faço-me entender? São pior que molho tabasco em arroz branco, em dia de ressaca! Ah, quase me esquecia, a bagagem da minha irmã... ainda não apareceu. Sem palavras.
No dia em que a ONU anuncia um aumento de 4% no tráfego aéreo mundial em 2004, dá vontade de perguntar se eles fizeram as estatísticas a contar com a Air Luxor? Pelo andar do carrocel, essa meta vai ficar bem longe!
Estão avisados, se querem voltar para casa com o mesmo bilhete da ida, escolham outra companhia!

P.S.- Como o propósito era descarregar o nojo que ainda me mete toda esta situação, e como fui demasiado brando, termino esta 1ª intervenção a praguejar. Directamente aos responsáveis da Air Luxor: Carneiros tosquiados, vacas tresmalhadas, porcos imundos! Pronto, já me sinto melhor.

A primeira vez

Já tinha decidido que 2004 seria o ano da minha entrada no mundo dos blogs.
Desenganem-se pois não tenho nada de importante ou erudito para dizer. Dada a expansão do blogomundo e a intensa consulta que faço todos os dias a umas quantas "tascas" digitais, decidi abrir a minha própria tasca.

Aqui não há vinho nem aguardente. A ginja acabou e o whiskey está caro. Temos Pedras Salgadas. Contra enjoos e mau-estar, ressaca e indigestões. A mim parece-me que é tudo um problema de estômago. Anda meio mundo mal disposto! Ler barbaridades, que possa (e vou!) escrever neste espaço, pode ter os mesmos dois efeitos de uma garrafinha de Pedras Salgadas... como se não os soubesses! Guardei, ao longo dos anos, folhas, notas e pequenos cadernos com as minhas indisposições, ressacas e afins... tal como este blog, sem temas, sem assuntos e sem intenções.
O que esperar? Além desses textos que já existem, o quotidiano está cheio de situações indigestas. Exemplos: O polícia multou-te, escreve e insulta. O político é hipócrita, escreve e insulta. O estado mete-te a mão na carteira, escreve e insulta. É bom, para digerir toda a merda que nos fazem comer todos os dias! E há coisas difíceis de digerir.


Explicado que está o nome da "tasca", deixo o assunto do 1º post oficial do Pedras Salgadas: A minha aventura com a Air Luxor. Na primeira pessoa, a história indigesta de 70 portugueses no Aeroporto de Madrid, sem transporte para regressar a casa. É a história da mais nova "estrela" da aviação civil europeia, que do sucesso à desgraça, viu passar meia dúzia de dias. A mim, deu-me vómitos.

P.S.- Ainda não tenho maneira de comentarem, não percebo nada disto. Mas aceito as vossas críticas e sugestões neste mail: krespu@sapo.pt