julho 31, 2005

Marca d'água

É vazio que existe. Os espaços que faltam preencher zombam dos seus pretendentes, deixando-os sem guarda, sem grito, sem fé.

Na praça, e mesmo ao lado do canteiro, há um banco de ferro. Sentou-se agora um velho. Vinha já a abrandar o passo, ofegante, quando avistou o oásis de ferro e madeira. Ali sentado não expõe as suas dificuldades na óbvia incapacidade de deslocação. Mas é senhor de si mesmo, recosta-se para a pose e acende uma cigarrilha. Irrita-se quando deixa cair a cinza nas calças brancas. Deixo-o a praguejar e volto a atenção para um monte que se eleva ao longe.

Não há verde, nem sol. Já nada anseio que não seja planura. Queimo o brio e a vontade. Na verdade, é água que já não mata a sede.

julho 23, 2005

Trapézio

Não tenho bem presente a verdadeira razão que me motiva, nem da tangência pela realidade em que algumas ideias me surgem. Não sei se não foi o calor da manhã. Não deveria, porque a esse já me venho habituando. Arranco-me à cama e procuro um cigarro.
Hoje penso que fiz a instalação de uma cortina. “Penso” porque na dúvida, não quero criar ilusões a mais ninguém. Vivo bem com a minha e não pretendo que se alastre. Sei que deixei o cigarro no cinzeiro porque ainda me cheira ao papel queimado do filtro. Coloquei dois pregos pequenos a uma altura que me pareceu bem: não isola mas separa. Não incomoda ninguém e desempenha o seu papel na perfeição. Esta parede de pano fino podia estar na horizontal, e serviria de igual modo de rede de segurança. Que me acolhe e ampara nas frequentes quedas.
Opiniões que tenho em enorme consideração e estima, lutam entre si. Uma disputa cujo campo de batalha é a minha própria consciência. E nessa, sinto que já não tenho mão. É ela o meu livre arbítrio, as minhas escolhas e a minha sina. Mas desejo esta guerra, de pontos de vista e maneira de sentir. Quero bater-me com todas as forças e as minhas melhores armas.
Atiro-me de cabeça, com a certeza de que o pano fino fará o seu papel.

julho 18, 2005

Está quase, quase...

Em vésperas do último exame deste ano, já sinto o peso e a pressão a afastarem-se. Não vejo a hora de me despachar desta etapa, que já vai demasiado longa, quase uma década...
Nos próximos dias posso finalmente voltar aos meus pequenos luxos, quer seja passar o dia dentro do mar, a sentir o seu pulsar, ou nos meus retiros vespertinos neste sótão/sauna, para ler e escrever. Projectos e novas ideias que quero, finalmente, começar a dar forma.

Aproveitei, por entre deambulações contabilísticas, de lançamentos e classificações, para modificar um pouco o blog. Inaugurei a moldura da foto do momento com o Sr.Alfredo, o yorkshire terrier mais feroz (mas simpático) do planeta. Vou deixando, o mais regularmente possível, as minhas modestas sugestões, de músicas, livros e filmes. Espero que gostem da remodelação no blog e aproveito para sugerir que visitem o blog deste amigo.

Até breve,

julho 16, 2005

Sem razão

Venho de passagem, com uma dúvida que persiste sobre os atentados de Londres, actos que abomino, sem observar o local onde acontece, ou as motivações dos mesmos.
Será cruel pensar que as explosões de Londres são uma pequeníssima amostra do quotidiano de cidades como Baghdad, onde os atentados são diários. Apenas foram mediatizadas. Onde morrem pessoas inocentes, não há razão que subsista.
Mas no Iraque, TODOS os dias morrem pessoas, igualmente inocentes. TODOS os dias há atentados, TODOS os dias mais vidas terminaram sem conhecer o luxo de ter três refeições por dia. Porque refiro uma condição tão básica, para a nossa cultura? Porque é nestas desigualdades que a cultura ocidental se tem baseado, e se fundou, para se afirmar e dominar, pela força se necessário.
Ao pensar nesta, e em tantas outras desigualdades e injustiças, tenho náuseas. Compele-me a relativizar cada vez mais coisas, que tive como certas ou essenciais até aqui. Mas isto podem ser apenas os efeitos de algumas semanas de estudo, que terminam em breve...