Não me manifesto, nada me motiva.
Estou cinzento e frio e melancólico. É a chuva que me dilui a vontade e o nevoeiro que me tolda a visão. São os sonhos desprovidos de qualquer emoção, uma história sem final feliz e de um viajante sem rumo.
Empurra-me o vento pelas costas e transporta-me para além do que quero e consigo ver. Como uma folha embalada pelo vento, rasgo o ar em golpes secos e sem qualquer sentido definido. São visões horizontais, numa planura inexistente, horizonte interrompido a betão disforme, castrador da vontade de ver e saber mais.
Devolve-me a loucura que insanamente me roubaste. É-me cara e fulcral para a sã existência que anseio. Desvaneceu-se em tons de saudades, de lembranças da vida, de viagens que nunca fiz.
Um novo sopro transporta para as ondas o rumo da minha viagem. Uma cruzada de descoberta, de realidades vãs, onde cada movimento é um passo de tango, uma confissão apaixonada, que começa em bonança e volve tempestade.
outubro 20, 2004
outubro 06, 2004
Up in smoke
A semana começa a meio e já vai longa. O mesmo acordar e os mesmos cheiros. Cansa-me toda a treta televisiva, a algazarra despropositada, as celebridades abichanadas e duas horas de sono por noite. Cansa-me respirar quando a isso sou obrigado, por não recusar o inevitável.
Encontro os meus estímulos nas coisas mais insignificantes, e sem elas não posso, nem quero, viver. Surtos de suores frios reduzem o que sinto a gotas que me correm na fronte. Desprezo esta condição humana limitativa de feitos e sentimentos extraordinários. Um enorme negro cresce e toma forma, mas rapidamente o absorvo, em aneis de fumo carregado de coisas que não são reais. Desenham-se e dançam no ar. E desaparecem com um sopro, apago a vela e sinto a cera correr pelos dedos. Na ausência de luz o pensamento clarifica-se, mas falta-me o brilho á alma, uma falta que me condena a esta velocidade de cruzeiro a que as palavras me saiem.
«Cheguei aquele ponto em que o tédio é uma pessoa, a ficção encarnada no meu convívio comigo.»
F.Pessoa, Desassossego
Encontro os meus estímulos nas coisas mais insignificantes, e sem elas não posso, nem quero, viver. Surtos de suores frios reduzem o que sinto a gotas que me correm na fronte. Desprezo esta condição humana limitativa de feitos e sentimentos extraordinários. Um enorme negro cresce e toma forma, mas rapidamente o absorvo, em aneis de fumo carregado de coisas que não são reais. Desenham-se e dançam no ar. E desaparecem com um sopro, apago a vela e sinto a cera correr pelos dedos. Na ausência de luz o pensamento clarifica-se, mas falta-me o brilho á alma, uma falta que me condena a esta velocidade de cruzeiro a que as palavras me saiem.
«Cheguei aquele ponto em que o tédio é uma pessoa, a ficção encarnada no meu convívio comigo.»
F.Pessoa, Desassossego