novembro 13, 2004

Antagonia Filosófica Branca

Outro despertar cheio de antagonia devolve-me pensamentos gravados a fogo. Quero sentir mais, mas não descubro a flor para cheirar. O sol não chega para me iluminar a alma e o esforço que faço para abrir os olhos pesa-me no desejo de saber quem és. Como o mosquito em volta da luz branca, estupidamente atraído por um brilho que a sua razão desconheçe. Manifesta-se em silêncios espaçados, em ausências de ressentimentos, numa alvorada fresca. É urgência de ti sem te ter. Sufoco em tons de brisa do mar, que me enche o corpo de azul, sopra breve mas intenso.

Não receio sentir o desconhecido, receio não sentir de todo. Mas nessa inércia não toco e vivo com a dúvida coberta por cera quente. Na fugaz tentativa de superar o que de mais fraco existe em mim, sobra-me a vontade e falta-me a força. Levanto-me por isso, entre estas duas paredes de água e areia e vou em direcção ao ocaso da imensidão do teu (ou meu) inconsciente. É a força que encontro hoje para evitar o delírio. Não me faltasse ela em todos os restantes dias que sou forçado a existir.

outubro 20, 2004

Viagens em mim I

Não me manifesto, nada me motiva.
Estou cinzento e frio e melancólico. É a chuva que me dilui a vontade e o nevoeiro que me tolda a visão. São os sonhos desprovidos de qualquer emoção, uma história sem final feliz e de um viajante sem rumo.
Empurra-me o vento pelas costas e transporta-me para além do que quero e consigo ver. Como uma folha embalada pelo vento, rasgo o ar em golpes secos e sem qualquer sentido definido. São visões horizontais, numa planura inexistente, horizonte interrompido a betão disforme, castrador da vontade de ver e saber mais.
Devolve-me a loucura que insanamente me roubaste. É-me cara e fulcral para a sã existência que anseio. Desvaneceu-se em tons de saudades, de lembranças da vida, de viagens que nunca fiz.
Um novo sopro transporta para as ondas o rumo da minha viagem. Uma cruzada de descoberta, de realidades vãs, onde cada movimento é um passo de tango, uma confissão apaixonada, que começa em bonança e volve tempestade.

outubro 06, 2004

Up in smoke

A semana começa a meio e já vai longa. O mesmo acordar e os mesmos cheiros. Cansa-me toda a treta televisiva, a algazarra despropositada, as celebridades abichanadas e duas horas de sono por noite. Cansa-me respirar quando a isso sou obrigado, por não recusar o inevitável.
Encontro os meus estímulos nas coisas mais insignificantes, e sem elas não posso, nem quero, viver. Surtos de suores frios reduzem o que sinto a gotas que me correm na fronte. Desprezo esta condição humana limitativa de feitos e sentimentos extraordinários. Um enorme negro cresce e toma forma, mas rapidamente o absorvo, em aneis de fumo carregado de coisas que não são reais. Desenham-se e dançam no ar. E desaparecem com um sopro, apago a vela e sinto a cera correr pelos dedos. Na ausência de luz o pensamento clarifica-se, mas falta-me o brilho á alma, uma falta que me condena a esta velocidade de cruzeiro a que as palavras me saiem.

«Cheguei aquele ponto em que o tédio é uma pessoa, a ficção encarnada no meu convívio comigo.»
F.Pessoa, Desassossego

setembro 21, 2004

É só vontade

Hoje apetecia-me não ter nada para fazer, estar num país distante e beber uma bebida com nome estranho. Apetecia-me abrir os olhos e sentir o vento a gelar-me o cérebro. Apetecia-me não me cansar em pensamentos, e acordar com som de fundo...
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I Will

I will lay me down
in a bunker underground

I won't let this happen to my children
meet the real world coming out of your shell
With white elephants sitting ducks
I will rise up

Little babies' eyes, eyes, eyes, eyes
Little babies' eyes, eyes, eyes, eyes



Eles é que sabem

«O erro está limitado.»
José Maria Trindade
Questionado por uma aluna sobre a eficácia da divisão de responsabilidades e trabalho no Seminário Inter-Disciplinar, pelos 3 professores envolvidos.

Uma palete de políticos, SFF

O Portas anda doido com o novo ministério. Parece as criançinhas com o brinquedo novo nas mãos. Ele é jogar á batalha naval com um grupo de holandesas liberais, ele é combater o tráfico de droga com lancha "rápida" e submarinos, enfim, o Paulinho está como quer!
O Alberto João que se meta a pau, anda por lá a chamar ressabiados aos amigos populares do Portas na Madeira e isso pode dar mau (ou bom) resultado. É como diz o outro: "Quem se mete connosco: leva!" - passa uma coisinha má pela cabeça do Portinhas, manda as corvetas para a Madeira e faz lá um golpe de estado. O que não seria de todo mau!
Se esta merda se passasse noutro país, eu ria-me! Mas não, é mesmo por cá. É esta classe de bandidos que governa o meu País. Todos no mesmo saco. E é isso que é triste.
Políticos de profissão, ou adaptados a isso por força das circunstâncias: todos com uma incrível falta de memória, pois esqueçem-se das razões e das obrigações inerentes ao cargo que ocupam. Há, como em qualquer situação, honrosas exepções. Digo honrosas, porque são poucas, mas principalmente, pelo exemplo que conferem.
Espero que seja, como alguém me vem dizendo, a viragem de mais um ciclo. É a lei natural, tudo tem um ciclo. Maior ou mais pequeno. Curto ou mais alongado. Uma coisa é certa: tudo é finito. Quanto ao PP e ao Portas, não prevejo um futuro risonho para nenhum deles. Simplesmente porque já ninguém os atura! E vão descobrir isso da pior maneira. Há as tais exepções, mas eu não digo quem são!!!
Por mim, estou farto deles todos. Quero políticos novos! Estes estão velhos e caducos. Estou absolutamente cansado de ouvir dizer que o meu País é o último (ok, há a Grécia) em tudo quanto é indicador económico e de qualidade de vida! Esta trupe passeia-se por cá há 20 anos e os resultados estão á vista: um rotativismo cretino, de "ok, agora podes ser tu a mandar" - "Daqui a 8 anos mandamos nós" - andamos nisto há uns anos, largos!
Está na altura de renovar o sangue, de haver novas ideias e iniciativas. É necessária toda uma nova classe de pessoas que não se queiram intitular de "Políticos"; uma classe de pessoas que tenha como objectivo ser e fazer melhor, em prol do bem-estar público, que deverá ser o seu próprio.

setembro 10, 2004

dEUS

«Pain's playing yoyo in my body as we speak.»

Sabor a sal

Sou incauto e vejo as horas passar. São fartas as noites em coisa nenhuma. Não me detenho a descobrir as razões para esta aparente solidão, mas nela encontro todo conforto de que preciso. Ainda assim, faltas-me tu. Onde te encontras, sol que me aquece a alma?
O reflexo ténue na loiça branca denuncia toda a ausência e o espaço vazio, inundado por um cheiro a mar revolto, deixa no meio uma agitação constante. Dança sozinho, bem no meio, movido por ventos que se cruzam e abraçam num turbilhão de coisas que sinto e que não entendes. Misturado com o sal que resta dessa maresia, confunde-me e delicia-me o teu sabor, mas também hoje, à minha mesa, ninguém se sentou, ninguém bebeu do mesmo vinho.
As cores mortas da madrugada estão ali à minha frente e pedem-me para lhes fazer o velório. Sento-me no monte em frente ao mar e faço a minha procissão, espalhando incenso e fumo por cima das moribundas criaturas. Há nesta imensidão tanta vida que não conheço, tanto sabor e calor, tanto e tão pouco para o que alcanço. O sono assalta-me no meu último reduto de consciência. Cruzo as pernas e aconchego-me no ninho que aqui me reservaram. Tenho ainda uma certeza: faltas-me tu.
Sou mais do que pedi, mas menos do que esperam de mim. Mas já lá vai o tempo em que isso me preocupava e condicionava a minha maneira de ser e de estar. Quero apenas ser, e viver com isso.

agosto 26, 2004

Mão Morta

É quase perigoso entender os poemas do primo Adolfo...


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No calor da febre que me alaga toda a fronte
Sinto o gume frio da navalha até ao osso
Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço
E a luz do sol a fraquejar no horizonte
Já desfila trémulo o cortejo do passado
Que me deixa quedo, surdo e mudo de pesar
Vejo o meu desgosto na beleza do teu rosto
Sinto o teu desprezo como um dardo envenenado

Morro Morro No altar de ti
Morro Morro No altar de ti

Sopra forte o vento na fogueira que arde em mim
Sinto a selva agreste nos batuques do meu peito
No cruel caminho em que me lança o desespero
Sinto o gelo quente do inferno do meu fim
No calor da febre que me alaga toda a fronte
Sinto o gume frio da navalha até ao osso
Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço
E a luz do sol a fraquejar no horizonte

Morro Morro No altar de ti
Morro Morro No altar de ti
Morro Morro No altar de ti
Morro Morro No altar de ti

Sinto o cão da morte a bafejar no meu pescoço
Sinto o cão da morte a bafejar no meu percoço
(...)

Cão da Morte, Primavera de Destroços, 2001

agosto 25, 2004

Insónias - 5ª episódio

O PODER DA CANETA AZUL

Na minha visita diária (nocturna) pelos blog's amigos, reparo que o verão arrefeceu também a vontade de escrever à maioria dos camaradas. Mas há quem quebre a regra. Mais uma vez, este rapaz surpreende-me. Já aqui referi o PhotoBlog do Nuno, por uma vez. Mas não deixem de ver esta foto. «MIND BLOWING!»
Se tiverem tempo, e paciência, dêem um saltinho aqui. O meu alter ego, em colaboração com mais dois amigos.

Estive a ver o Elephant, de novo. Soberbo! Um filme intenso e um jogo de luz e contrastes, quase alucinante.
A minha relação com a obra do Van Sant é muito recente. Do fundo da minha ignorância, e sinceridade, só há pouco mais de um ano é que o senhor me foi "apresentado".
Como realizador, fez cerca de vinte filmes. Não conheço metade deles. Vi cinco. Há coisas com piada, outras não. Meter dois gajos, com o mesmo nome, a andar no meio do deserto, não chega para fazer um filme. Mas ele achou que sim e chamou-lhe Gerry.

Tal como faço aos filmes, releio livros. Por gosto. Porque descubro outras coisas. Porque vejo as mesmas coisas de maneira diferente. O Desassossego do Pessoa é, para mim, isso mesmo: uma maneira diferente de ver as coisas. Mas o que davam ao homem para ele escrever assim???
«Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida.
Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar! De nenhum modo físico estou bem. Todas as maciezas em que me reclino têm arestas para a minha alma. Todos os olhares para onde olho estão tão escuros de lhes bater essa luz empobrecida do dia para se morrer sem dor.
»
PORRA! Leio e fico a olhar para a forma, deslumbrado.

Alguém lá dentro acordou para a vida. Parece que está a ser estudada uma lei que regule o negócio das roulotes de comida. Parecem colmeias e parece que se multiplicam. Toda a rotunda tem a(s) sua(s) roulote(s). O problema é que esses locais são, frequentemente, transformados em bares. Na rua, é certo, mas durante toda a noite, é ali que se come, é ali que se bebe e se bebe e se bebe... e depois, inevitavelmente, há problemas. Está na altura da bófia abrir a pestana. Falo com conhecimento de causa. Já assisti a uns bons combates de street-fighting. Mais que uma vez, em mais que um local. O episódio mais recente excede um pouco o normal, mas não inédito: andaram aos tiros num desses locais. Um morto. Esta merda tem algum jeito? E as bombas de gasolina com os carrinhos tunning e os seus bares improvisados? É a mesma história. Uma vergonha.
Fechem esses antros e deixem as casas que podem, e devem, estar abertas até mais tarde, servir refeições, bebidas e um local seguro para se estar. Mas não! - O que está a dar é fechar bares ás 2 da manhã... que fazer?

Eu... dormir.
Beijinhos e abraços

agosto 23, 2004

Remodelações

Mudei o aspecto á tasca, por razões de ordem técnica. O template anterior já pertencia à pré-história do blogger. Aos insistentes (resitentes) clientes da casa tenho que pedir desculpas, mas os comentários... já eram.
Mas template novo, vida nova! Espero que gostem, que apareçam e que comentem. É pedir muito? ops... ok, então desculpa.

abraços e beijinhos!

agosto 19, 2004

Descobertas

Este texto, publicado no Público de hoje, dá conta de um estudo, realizado Faculdade de Química da Universidade Complutense, em Madrid, que revela que um componente da cannabis poderá ser usado para tratar tumores cerebrais. O tratamento poderá substituir a radio e a quimioterapia. Deêm o benefício da dúvida e tirem as vossas conclusões.
A mim parece-me que anda meio mundo agarrado ao Valium e ao Xannax, e chamam drogados a quem fuma cannabis... eles lá sabem.

agosto 18, 2004

Fidewa

Ingredientes:
200 gr. Miolo de Berbigão
200 gr. Miolo de Amêijoa
200 gr. Argolas de Lulas
200 gr. Camarão pequeno
10 Gambas
500 gr. Espaguete
4 Caldos Knorr de Marisco
Cebola, Alho e Pimento verde
Pimenta branca moída e Coentros(qb)

Preparação: Numa caçarola grande ou recipiente idêntico (serve o das paellas) faz-se um refogado, em azeite virgem, da cebola, o alho e o pimento verde. Cobrir toda a base do recipiente com o refogado e deixar apurar até que a cebola fique transparente.
Juntar todo o marisco, previamente lavado para soltar a areia. Deixar o marisco cozer em cima do refogado aproximadamente 5 minutos.
Neste período de tempo, preparar numa panela, um litro de água com 4 caldos Knorr de Marisco. Reparem que em altura nenhuma juntam sal ao tempero.
O marisco está quase cozido e falta apenas juntar a massa. Para isso junta-se meio litro do caldo de marisco e, por cima, o esparguete partido ao meio.
Deitar a pimenta branca moída, a gosto, e deixar cozer. Podem juntar o restante meio litro do caldo de marisco, á medida que vá sendo necessário para cozer a massa.
Servir no recipiente em que se cozinhou, adornando o prato com as gambas e umas folhas de coentros.



Vinhos:
Verde, muito fresco.

Nota: Confecciono ao domicílio. Preços módicos.

A viagem na cabeça

«Do meu quarto andar sobre o infinito, no plausível íntimo da tarde que acontece, à janela para o começo das estrelas, meus sonhos vão por acordo de ritmo com a distância exposta para as viagens aos países incógnitos, ou supostos, ou somente impossíveis.»
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

agosto 17, 2004

Mais que eu

O dia começou para mim, doce e quente. Numa alvorada tardia, a luz que rompeu a cortina improvisada bateu-me nas pálpebras e desperta-me da latência. Ainda tento distinguir o que é sonho ou não, mas enquanto me levanto, sinto que tenho dentro de mim coisas que não queria reais. Estou, no entanto, leve. São para mim companheiros de viagem, dos quais desisti de me separar, pois fazem parte do meu corpo, como os meus olhos ou a minha pele. Estão mais perto de saber quem eu sou... do que eu mesmo. Não me distingo entre as sombras, que os muros que ergui projectam no chão quente. Por isso prefiro a planura, e não olhar para os escombros que deixo para trás. Vejo crianças de sorrisos gastos. Passaram por tanto que se esqueçeram de como se ri. Estou no meio delas e invade-me um vazio assustador.
Tenho calor, arrepio-me de frio, tiro a roupa e mergulho nás águas azuis. Sinto que recomeça tudo.